Sobre distócias no parto

Distócia é qualquer problema, de origem materna ou fetal, que possa dificultar ou impedir o parto, podendo ser definida como qualquer perturbação no bom andamento do mesmo em que estejam implicadas quaisquer alterações em um dos três pilares fundamentais do parto: motor (contrações uterinas), objeto (o próprio bebê) e trajeto (pelve e partes moles).

Embora não descritas oficialmente em livros de Obstetrícia, devo acrescentar ainda as que chamo de distócias emocionais, provavelmente as mais comuns (mas isso é tema pra outro post).

Distócia de objeto, principal tema desse post, é toda aquela que, por conta de alguma anormalidade no peso do bebê (macrossomia) ou em seu posicionamento (mais comum), acaba por dificultar, prolongar ou impedir o parto. O diagnóstico é feito pela resposta à evolução do trabalho de parto, ou seja, não dá pra prever um parto distócico, exceto quando da prova de trabalho de parto em si.

Mas podemos sim antecipar alguma dificuldade, principalmente se o peso estimado por ultrassonografia for maior que 4 kg (especialmente maior que 4,5 kg) ou se altura do fundo de útero estiver acima do percentil 95 pra IG, o que indicaria uma USG a mais no terceiro trimestre para confirmação ou exclusão de macrossomia fetal e/ou polidramnia.

O que sim dá pra antecipar também é: partos com mais intervenções tendem a aumentar o risco de distócias em comparação a partos totalmente naturais, em que a fisiologia é respeitada e a mulher adota livres posições pra parir, na maioria das vezes verticalizada de alguma forma ou com a pelve livre. Posições litotômicas tradicionais podem reduzir entre 20 a 30% o diâmetro de saída da pelve, aumentando em muito o risco de distócias de ombro e expulsivos mais prolongados, especialmente se da existência maus posicionamentos de cabeça fetal.

Em partos naturais, distócias dificilmente indicam cesariana (mas parto distócico pode sim ser indicação de cesariana – vide post aqui sobre DCP e parada de progressão).

A cesariana é o último recurso e pode sim ser necessária em uma minoria de casos, quando da não resolução pela sugestão de posturas e exercícios que favoreçam a correção da posição e a descida do bebê, além da ciência, pela equipe assistente, que o parto possivelmente demorará mais a se resolver e demandará bastante paciência nessa espera, se o bebê estiver bem.

Quanto à distócia de ombro, é identificada após a saída da cabeça do bebê, especialmente pelo “sinal da tartaruga” e clara não visualização do pescoço ao longo da contração, além de não progressão da cabeça. Representa risco iminente à vitalidade do bebê, que pode necessitar de manobras de reanimação neonatal, cujas chances aumentam a cada minuto de demora na resolução do caso. Sendo assim, existem manobras externas a serem realizadas para favorecer o desprendimento, a depender da posição em que a mulher se encontre, e algumas manobras internas de rotação dos ombros e até mesmo extração manual do braço fetal impactado na pelve. A exemplo do parto de ontem, a mulher encontrava-se semi sentada com as pernas no apoio de pés por conta da utilização do vácuo extrator e o mais rápido a se fazer foram a hiperextensão de coxas e pressão suprapúbica, manobras externas que costumam resolver a quase totalidade dos casos por si só, como aconteceu.

Vale lembrar que se deve informar a mulher sobre o que precisa ser feito, com suavidade, calma e segurança. Por fim, ter em mente que mais de 50% das distócias de ombro em si acontecem em bebês de peso absolutamente normal e, mesmo para bebês grandes, distócias seguem sendo raras se parto espontâneo e sem intervenções desnecessárias.

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